Ainda tenho esperança – desabafo de uma mãe especial

Eu acredito que possamos fazer diferente!

Eu não desisto e não vou desistir nunca. Ainda tenho esperança de encontrar o melhor para meu filho. Todos os dias eu acordo com a esperança de que será um dia bom, ou que as coisas devem melhorar. Assim eu espero que uma chave vire e eu possa encontrar a plenitude de uma vida em que as pessoas respeitem as diferenças. Bom, poderia ser assim, mas não é.

Quando penso no meu filho lutando para ter uma vida no mínimo normal é como se alguém arrancasse cada pedaço de mim a sangue frio. A dor que eu sinto de imaginar o sofrimento dele é impossível descrever. Se dispensarmos apenas uma pequena parte do amor que uma mãe sente para qualquer pessoa, eu teria certeza de que o mundo seria melhor.

Minha luta é grande, mas para a maioria deve ser bem pequena. O desafio diário é buscar relevância quando na verdade o problema que carrego não é problema de ninguém. Não posso acusar as pessoas de egoístas, afinal, todos nós somos um pouco. O que posso fazer é lutar com minha irrelevância para que todos que estejam perto de mim entendam.

É assim que me sinto. Sozinha neste mundo. Quando digo sozinha me refiro à luta que eu e meu marido enfrentamos para dar a meu filho um dia normal. Porque um dia anormal é que o ultimamente encontramos quase que diariamente.

Vivemos sim em uma sociedade um tanto atrasada. É comum presenciar a covardia de uma manifestação de racismo, ou tropeçar em um homossexual espancado, ou mesmo o desrespeito com a mulher. Mas nem sempre o preconceito é tão descarado assim, pois em pequenas coisas do dia a dia a gente encontra um tipo de desprezo e de julgamento que nos faz acreditar – mesmo que por minutos – que não temos o direito de ter uma vida normal.

Há 6 anos meu filho foi diagnosticado com traços de autismo, um tipo de epilepsia e transtorno de déficit de atenção. Além do medo que senti de imaginar o sofrimento dele, o pavor de enfrentar isso e me cobrar de fazer o certo, todo o resto é ainda mais assustador.

O que penso e oro todos os dias para o Gabriel:

“Que eu o ajude a te fazer sonhar. Que eu possa te ajudar a realizar teus sonhos e te consolar quando algo não der certo. Que eu não saia nunca do seu lado. Que eu lute por você a cada dia”.

Nós negligenciamos os nossos sonhos e nos esquecemos deles – quando nos reconhecemos como inadequados em uma sociedade dura que tem como primordial o padrão de vida em que poucos modelos são “aprovados”.

É assim com meu filho nas escolas em que tentei lutar para que ele tivesse o respeito e o direito de estudar como outros. Não tenho expectativas que ele seja o primeiro da turma, e que seus boletins tenham notas altas, nem que ele seja o atleta mais bem sucedido, ou que seja popular, ou que namore a garotinha mais linda. O que eu quero é muito simples: Respeito. Além disso, que ele seja feliz, que respeite as diferenças, que sinta prazer e motivação, e que enxerguem nele suas qualidades e principalmente tenha qualidade de vida.

O direito de sorrir e viver em paz é para todos. Quero que meu filho sinta a satisfação de uma criança que se sente realizada jogando futebol com seus amigos. Ora, se meu filho não consegue jogar futebol como pode se realizar? É frustrante para ele. Por que não criar outras atividades que possam proporcionar a mesma satisfação? Por que futebol e judô? Cadê o compromisso dos educadores em proporcionar qualidade de vida para seus alunos? As escolas não assumem de verdade a “diferença” – pelo menos as ultimas que passei – apenas cumprem a lei. A minha sensação é que estou no lucro só de aceitarem meu filho, como um “cala a boca”, mas dói pensar que conto apenas com minha fé de que ele terá a atenção adequada.

Não aceito mais ouvir de meu filho que ele sente angústia porque a professora não tem paciência de ensiná-lo, não posso mais admitir que a coordenadora da escola diga que é difícil lidar com ele. E que no trabalho em grupo ele vire “café com leite”.

Minha última experiência com a escola me deixou um tanto traumatizada. As promessas são as mais diversas – sobretudo o carinho e respeito – que trazem esperança, mas, no dia a dia, é bem diferente e está longe de acontecer. Não dá para culpar apenas a instituição, ou só um professor, ou o porteiro. É um movimento em que poucos estão comprometidos. E desejo que percebam, de uma vez por todas, a grandeza e o poder dos pequenos gestos do dia a dia que podem fazer a diferença na vida de uma criança. Choro quase todos os dias porque isso me mantem firme e ligada. Minha luta poderia ser apenas com alguns tropeços para pequenos ajustes somente pelas dificuldades deles, mas não, ela é grande e intensa por conta dos outros que não entendem a diferença. Gasto muito tempo avaliando como as pessoas vão tratá-lo ao invés de gastar meu tempo com ele. Percebo que falta delicadeza, paciência, calma, paixão, falta se comprometer. Sabe de uma coisa? O que falta mesmo é amor ao próximo.

Mesmo que a maturidade me ajude a compreender que nem tudo é possível – ser perfeito, por exemplo – ela não pode arrancar a única coisa que realmente vale a pena na vida: a honra de ter uma criança que me ensina ser uma pessoa melhor a cada dia.

Para meu amor Gabriel.
Me ajudem a divulgar ‪#‎essalutatbmésua

Escrito pela mamãe Gabrielle Massarão, mãe do Leonardo, Gabriel e Valentina

e-mail: gabrielle.massarao@funcesp.com.br